Tá todo mundo correndo atrás de absorver rapidamente as novas regras ortográficas baixadas por decreto para a unificação da grafia, por consenso, em países de língua portuguesa. Mais essa agora pra gente assimilar rapidinho para manter um diferencial no conhecimento nesse mercado competitivo. Tenho cá pra mim que vamos aceitar fácil a ideia do infrassom, da autoestrada e do Para Pedro, Pedro para. Mas, o que fazer com os canalhas que não pagaram pelos cacetes simplesmente porque a bicha era muito grande e tinha muito puto? Você ficou zangado porque eu estou indecente hoje? O que é isso, amigo? De forma alguma. Eu estou é preocupada em saber como resolver o problema do Marialva que enfrascou-se e pediu punheta para 5! Você tem alguma sugestão? E isso fora o problema dos Almeidas e das hospedeiras que precisavam de uma pica específica. E agora? Tá achando que ou eu bebi ou perdi as estribeiras? O que é isso, amigo, você me conhece!
Estão todos muito preocupados com a reforma ortográfica, mas já pensaram que jamais seremos unificados nas expressões porque as línguas são distintas mesmo? Não à toa há livros escritos em “brasileiro” e “português”. E esses regionalismos são preciosos e não podem perder-se. Se aqui mesmo, num país continental como o nosso, cada região tem suas características, o que dizer de dois países distintos separados por um marzão? Com culturas e hábitos tão diferentes? Preservamos nossa macaxeira e aipim, nosso sinal e farol, mexerica e tangerina entre tantos.
Agora... o que fazer com as crianças que não pagaram pelos pãezinhos simplesmente porque a fila era muito grande e tinha muito adolescente? Já sabe o que fazer para ajudar o mulherengo resolver o problema de ter se embebedado e pedido bacalhau desfiado para 5? E o que podemos fazer para os garis e comissárias de bordo que precisavam de uma injeção específica ?
Ler. Ler muito. E na leitura, nos enriquecer com tantas expressões curiosas lá da terrinha, muitas vezes engraçadas e embaraçosas que me fazem pensar... problema de reforma ortográfica? Não procure na Coreia, na boia ou na boleia. A acção passou a ser ação, mas a ado(p)ção de ótimos autores portugueses será ó(p)timo para conhecermos mais que um simples voo pode oferecer.
E você ainda está preocupado com hífens e tremas?
Rachel Bassan
Wednesday, July 8, 2009
Thursday, April 12, 2007
Sem elas eu não vivo
Confesso que elas me eram irresistíveis. Todas elas.
Me seduziam e eu não conseguia me render a seus encantos.
Juntas então, me levavam às alturas. Eu perdia noites de sono pensando nelas.
Havia as que me acariciavam, me provocavam, instigavam meus instintos.
Havia as que me emocionavam. Me faziam chorar. Eram duras, irredutíveis.
Porém, eram todas singulares. Cada uma com seu jeitinho peculiar de ser. Com características únicas que as faziam mais e mais interessantes.
As poderosas eram desafiadoramente terríveis. Intrigantes. Surpreendentes.
As esperançosas eram doces,companheiras. Escancaravam sorrisos em rostos tristes. Faziam brilhar olhos foscos.
As destruidoras eram diabólicas. Acabavam comigo.
Havia também a malvada. E a bondosa. A salvadora. E a religiosa.
A complexa, que me demandava tempo para compreende-la.
E a sutil, delicada como uma pluma.
E, curiosamente, juntas formavam um grupo homogêneo dos mais deliciosos.
Juntas eram capazes de tudo. Literalmente, de tudo. Da mais simples crônica ao mais elaborado livro.
As palavras. Que peso e importância têm!
Me seduziam e eu não conseguia me render a seus encantos.
Juntas então, me levavam às alturas. Eu perdia noites de sono pensando nelas.
Havia as que me acariciavam, me provocavam, instigavam meus instintos.
Havia as que me emocionavam. Me faziam chorar. Eram duras, irredutíveis.
Porém, eram todas singulares. Cada uma com seu jeitinho peculiar de ser. Com características únicas que as faziam mais e mais interessantes.
As poderosas eram desafiadoramente terríveis. Intrigantes. Surpreendentes.
As esperançosas eram doces,companheiras. Escancaravam sorrisos em rostos tristes. Faziam brilhar olhos foscos.
As destruidoras eram diabólicas. Acabavam comigo.
Havia também a malvada. E a bondosa. A salvadora. E a religiosa.
A complexa, que me demandava tempo para compreende-la.
E a sutil, delicada como uma pluma.
E, curiosamente, juntas formavam um grupo homogêneo dos mais deliciosos.
Juntas eram capazes de tudo. Literalmente, de tudo. Da mais simples crônica ao mais elaborado livro.
As palavras. Que peso e importância têm!
A Herança
Estariam todos novamente esta noite em torno da mesa festiva. Era Pessach outra vez. A festa da liberdade. Como sempre, Regina se esmerara na arrumação da linda mesa: A toalha branca, os castiçais de velas reluzentes aos talheres de prata, cristais e pratos de porcelana, herança da avó materna. Tudo igual, como em todos os outros anos. O aroma das comidas típicas do dia inundava a casa. Estava tudo pronto para receber a família.
Uma enorme nostalgia invadiu-a e fez com que se desligasse por um momento. Viajou ao passado. Lembrou-se da avó com saudade. Neta mulher única, xodó da avó, haviam sido muito amigas. Cúmplices, até. E, Regina a depositária de suas riquíssimas histórias de vida.
Deitadas na cama, na penumbra da noite, ouvia embevecida a avó – uma imigrante judia russa da época do Czar - contar-lhe como fugira da Rússia clandestinamente num navio cargueiro com a ajuda da Cruz Vermelha. Parecia um filme de suspense. Regina sequer piscava. Sedenta de mais e mais histórias que a avó tinha, infindavelmente, para contar. Prestava atenção a cada palavra. Lembrou-se que certa vez havia dito à avó que escreveria todas estas histórias, para que não se perdessem. Foi duramente repreendida pela avó.
- Regina, você tem que guardar estas histórias no seu coração. Escrever jamais! Nem uma palavra!
A avó lhe dizia que “nossas histórias” são para serem contadas e guardadas na memória do coração, jamais escritas. O pânico da avó de “descobrirem” sua história e ser punida era tanto que Regina jamais ousou desobedecer. Como se o tempo não houvesse passado e como se os pogrons e os czares não pertencessem ao passado.
A campainha tocou e trouxe Regina de volta. Sorriu. Invariavelmente a avó sempre estava presente aos jantares de Pessach, de uma forma ou outra. Podia até sentir o cheiro de sua água de colônia no ar. Sentiu-se reconfortada.
As crianças excitadas corriam pela sala. Seus netos. A sua família reunida. Regina com uma intensa sensação de bem estar. Era assim mesmo que ela havia sonhado. Todos juntos reunidos em torno de sua mesa.
Regina dá início ao “Seder” – o ritual de contar a história do êxodo dos judeus do Egito em busca da liberdade.
- Pessach 2007 - Mais uma vez - Tudo Igual ou Diferente? – instiga Regina.
- Mais um ano, mais uma celebração da festa da Liberdade - continua.
Sua neta, Maria Eduarda, lhe interrompe e questiona:
- Vovó Regina, por que você está contando esta história novamente? Tá igual à outra.
Você já se esqueceu que já contou esta história?
Regina parou a narrativa, pensou, sorriu e falou:
- Maria Eduarda, querida, esta é uma história especial, e vovó está contando novamente para que todos a conheçam bem e para que a guardem para poder contar aos seus filhos.
- Vó, mas até eu já sei. Você vai falar do Egito, né? Fala de outro país, vai!
- Duda, querida, não é de um país que a vovó está falando. É da nossa História que temos que preservar. Este Egito não é apenas um ponto no mapa do passado. É um estado de espírito. É uma possibilidade atual de nos perguntar: - “Qual é o meu Egito particular? O que obstrui a minha própria vida?”
Os olhos de Maria Eduarda brilhavam sedentos por mais e mais histórias que Regina tinha para contar.
E aí, de repente, Regina deu-se conta que a chave de tudo era “a palavra”. Falada ou escrita, não importava. O que era importante era que a memória fosse preservada através da palavra – que não podia perder-se. Por isso era passada de geração em geração. Era o que ela fazia com a sua neta agora. Contava histórias. Que tinham que ser preservadas. Que pertenciam a todo um povo com uma tradição de quase 6 mil anos. Um povo nômade que se manteve inteiro por ter justamente passado sua história através da palavra. E que só o que pôde acumular e transportar foi sua cultura. E deu-se conta das muitas gerações de judeus em todos os países e continentes, em todas as línguas e culturas que celebravam Pessach naquela mesma noite, exatamente como a família de Regina. Através da história sendo contada e recontada, a celebração tornava-se muito maior do que uma reunião familiar festiva. Tornava-se uma grande vivência de seis mil anos de história judaica. Que perpetuar-se-ia indefinidamente, enquanto alguém se dispusesse a continuar contando a história.
Por um momento Regina viu a imagem da avó, com sua neta ao colo, com um olhar maroto, piscar para ela. Era a continuidade. A História continuava.
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